Blog

A fascinante simbologia dos relógios na arte e na cultura pop

Tanto na vida real quanto na ficção, o relógio pode ter inúmeras simbologias, representando o tempo, obviamente, mas também a vida, a morte, o recomeço, a rigidez e muitos outros conceitos. Confira alguns deles!

A função de um relógio é, obviamente, marcar o tempo. Sendo assim, é natural que ele seja o símbolo máximo da passagem do tempo.

Mas quando falamos em símbolos, há um universo de significados muito mais rico que pode ser explorado, ainda mais quando estamos tratando de um tema tão complexo quanto o tempo.

Por exemplo, há muitas histórias de relógios que param no momento em que o dono morre. Em sua família, inclusive, deve haver alguma história do tipo. Pois saiba que isso é tão comum que, conta-se, aconteceu até mesmo com o rei Frederico, o Grande. O relógio de pêndulo de seu palácio teria “morrido” junto com o dono, em Sans Souci.

Esse aspecto místico sempre esteve ligado aos relógios. Até mesmo no plano dos sonhos eles ganham significados especiais. Sonhar com relógios pode representar momentos de correria ou a espera por algo que está para acontecer. Também pode-se associar esses sonhos a mudanças, pois os movimentos dos ponteiros é inexorável como a própria vida.

Falando em temas místicos, temos também o Feng Shui. Você sabia que essa milenar arte oriental, que tem como princípio harmonizar ambientes, também pode ter relação com relógios?

Com o objetivo de dissipar energias negativas e conservar as positivas, o Feng Shui utiliza tanto o movimento dos ponteiros do relógio quanto o ritmo do tique-taque. Acredita-se que eles podem trazer regularidade para a vida de quem o possui. Por isso o relógio de pêndulo é o mais indicado. E, caso você acredite, nunca mantenha em casa um relógio atrasado ou quebrado, pois a harmonia do lar será comprometida!

Quantos símbolos, não é mesmo? Da próxima vez que você olhar para um relógio, terá muito o que pensar! Entretanto esse não é nem o começo da nossa jornada rumo à simbologia dos relógios.

Separamos abaixo diversas obras de arte e da cultura pop onde o relógio assume um papel importante, e sempre com um significado profundo. Os próximos minutos serão de muita diversão e conhecimento. Preparado?

Carl Gustav Jung: a mandala na simbologia dos relógios

O autor de “O homem e seus símbolos” foi um dos mais importantes estudiosos da psicanálise. Sua maior contribuição para a área foi o estabelecimento dos arquétipos, figuras padronizadas que representam os diversos tipos de personalidade (do velho sábio ao louco).

Mas ele também estudou e disseminou para o mundo todo o conceito de mandala. Trata-se de uma palavra hindu escolhida pelo próprio Jung para representar símbolos comuns a muitas comunidades, utilizado como recurso para restabelecer o equilíbrio psíquico e também a saúde física das pessoas.

Jung observou que símbolos muito parecidos são utilizados em culturas diferentes. As civilizações orientais, por exemplo, utilizam mandalas para proporcionar a paz interior e favorecer a meditação, buscando ordem, significado e propósito para a vida.

Em seus estudos, Jung constatou também que muitas pessoas sonham com formas circulares, independentemente de qualquer cultura ou comunidade, o que o fez concluir que essas formas são universais, e que possuem algo de especial.

Mas o que tudo isso tem a ver com relógios? Bom, a essa altura você já deve imaginar. Primeiramente, o relógio é circular, a mesma forma de mandalas indígenas, tibetanas ou egípcias.

Em segundo lugar, porque, sendo circular, o relógio de ponteiros completa um ciclo a cada doze horas. E seus ciclos são também formas de representar outros ciclos, como o próprio ciclo da vida. Sempre que um ciclo se fecha, outro se reinicia.

Nesse mesmo esquema, o centro do relógio é sua parte imóvel, Ou seja, é algo que não depende do tempo, dos ciclos. É uma espécie de origem, ponto eterno sem início nem fim. Aposto como você nunca havia pensado dessa forma! A vida, assim como essa mandala moderna chamada relógio, não acaba. Ela simplesmente se renova.

O relógio como símbolo da morte em Edgar Allan Poe

Ainda falando sobre vida e morte, não poderíamos deixar de citar o famoso escritor estadunidense Edgar Allan Poe, muito celebrado por seu poema “O Corvo” e contos clássicos como “Os assassinatos da Rua Morgue”, “O poço e o Pêndulo” e “A carta roubada”, Poe ganhou a fama de precursor do gênero policial na literatura.

Mas suas obras também sempre foram envoltas em outros tipos de mistérios. Seus escritos são frequentemente associados ao misticismo, e a toda sorte de símbolos mágicos, como escaravelhos e gatos pretos.

E em sua obra também existe a presença marcante do relógio como representação da vida e de sua transitoriedade. O objeto aparece no conto “A Máscara da Morte Escarlate”. Nele, o escritor utiliza as badaladas de um velho relógio para anunciar a chegada da morte em um baile de máscaras, noite após noite.

Com a morte da última pessoa, o relógio para de tocar. Nesse sentido a associação à brevidade da vida e aproximação da morte é evidente. Parece macabro? De fato é! Mas uma análise profunda da obra do escritor nos mostra que ele também representa o surgimento de novas oportunidades, de reinício de ciclos em nossas vidas.

Dessa forma, voltamos a Jung, em mais um ciclo que se fecha! Como dizia Rubem Alves, educador e escritor brasileiro, “o tempo pode ser medido com as batidas de um relógio tanto quanto com as batidas do coração”.

Um relógio que manda você de volta para o passado

Qualquer que seja sua idade, sendo jovem no presente ou tendo sido jovem no passado, você já deve ter ouvido falar no filme “De volta para o futuro”. Nosso intuito aqui não é dar spoilers, por isso vamos focar somente no que nos interessa: o papel do relógio na trama.

Marty McFly, o protagonista, em determinada parte do filme, está alguns anos no futuro. Seu desafio é convencer o cientista Dr. Emmett que ele realmente é um viajante do tempo e pedir sua ajuda para voltar ao ano 1985.

A única fonte de energia capaz de gerar os 1,2 Gigawatts necessários para essa viagem, o “combustível” da máquina do tempo inventada pelo cientista, seria um raio. Por sorte, Marty tem em mãos a notícia futura de um raio que atingiu (na verdade ainda viria a atingir) a torre do relógio da cidade.

E no sábado, exatamente às 22h04min, com todo o aparato montado pelo Dr. Emmett, e depois de muitas reviravoltas ao longo do filme, o raio atinge a torre e o relógio pára. Será que Marty consegue viajar no tempo em seu famoso DeLorean? Assita para saber!

É, ou não é, uma perfeita metáfora para viagens no tempo?

Dalí e a simbologia dos relógios da memória

O que você faz quando decide que não quer ir ao cinema com os amigos? O famoso catalão Salvador Dalí pintou um dos quadros mais famosos da história. Foi uma boa troca, no fim das contas!

A obra, exposta no Museu de Arte Moderna (MoMa), em Nova York desde 1934, é uma pintura surrealista chamada “A Persistência da Memória”. Todos os dias ela dá aos frequentadores do museu a possibilidade de pensarem em diversas interpretações.

Carregado de simbolismos, o famoso quadro parece nos querer contar algo a respeito da noção do tempo e sua relação com a memória. Mas como em toda obra surrealista, não espere respostas prontas ou representações diretas.

O surrealismo, na verdade, nasceu na literatura. Ele é baseado na liberdade de criação, provocando o inconsciente das pessoas, fugindo da realidade, mas, ao mesmo tempo, convidando a enxergar aspectos dela que geralmente ficam escondidos.

O resultado é uma obra sem formalismos, muito rica em simbolismos e elementos que fogem da racionalidade e até mesmo da lógica. É o caso da obra de Dalí “A Persistência da Memória”.

Produzida em 1931, em menos de cinco horas de trabalho, ela tem somente 24 cm de largura. O que mais chama a atenção na obra são os relógios derretidos espalhados pela paisagem. Mas o que será que Dalí quis nos dizer com esses relógios?

O relógio é um dos objetos mais comuns e banais. Até bebês o reconhecem, e todos têm ou terão vários deles ao longo da vida. Ainda assim, não é algo que nos desperte a atenção. Somos escravos do tempo, mas não ligamos muito para os relógios em si.

Ao distorcer sua imagem, Dalí nos chama a atenção novamente para a importância deste objeto e a sua presença marcante em nosso vida. Os relógios derretidos, no entanto, representam um outro tipo de tempo, um tempo que passa de uma forma diferente.

Parece que a mensagem é que aqueles relógios ali não estão informando a precisão das horas, minutos e segundos. Pelo contrário, o que os marca é justamente a irregularidade.

O que esses relógios distorcidos estão nos dizendo é que o tempo da memória é diferente do tempo do relógio comum. Você pode se lembrar do passado remoto como algo que acabou de acontecer, e também pode se lembrar de um fato ocorrido ontem como se já houvesse passado muito tempo.

O relógio do seu avô ou da sua mãe, mesmo que normais, devem trazer para você este mesmo significado. A simbologia dos relógios também pode ser relativa às nossas melhores lembranças.

A bela, a fera e o relógio

No século XVIII Madame de Villeneuve escreveu o conto de fadas “A Bela e a Fera”, com mais de 300 páginas e pitadas de erotismo. Por esta última razão, a publicação era anônima.

Mais de 200 anos depois a Disney publicou sua versão da história, voltada ao público infantil. Tanto o desenho de 1991 quanto o filme de 2017 possuem basicamente o mesmo roteiro. E nele, aparece um relógio especial.

Horloge é um dos personagens de apoio da história contada pela Disney. Ele é o mordomo da Fera transformado em relógio, melhor amigo de Lumiére, um candelabro.

Apesar do visual engraçado, com os ponteiros formando bigodes e o rosto arredondado dando a impressão de ser rechonchudo, Horloge tem um comportamento muito sério e atitudes rigorosas.

Percebe-se logo que nessa história a simbologia do relógio é a de austeridade. Horloge age naturalmente como um líder que dita aos criados o que deve ser feito, tal qual o próprio tempo.

Sua personalidade se opõe à do amigo Lumière, despreocupado, desajeitado e divertido. Isso torna a figura austera do relógio ainda mais marcante. Sua tendência a dar ordens só não é maior que sua vontade de  cumprir as ordens da Fera, demonstrando todo o seu apreço e retribuindo com a repressão a toda forma de rebeldia (ao menos no início…).

Uma curiosidade pouco conhecida é que o Relógio Falante do programa infantil “Castelo Rá-Tim-Bum” exibido pela TV Cultura nos anos 90 é baseado no personagem de “A Bela e a Fera”.

Na verdade, segundo a trama do programa televisivo, o próprio relógio do conto “A Bela e a Fera” teria sido retirado de dentro do livro com as feitiçarias da bruxa Morgana.

Tudo porque ela queria no castelo um relógio falante para ajudar a organizar os afazeres, pronunciando as horas mais importantes do dia. E foi aí que surgiu o famoso bordão “O doutor Vítor vai chegar, o doutor Vítor está chegando, o Doutor Vítor chegou!”.

Hugo Cabret e a persistência

Persistência é a qualidade de não desistir, não importa o quanto o tempo pressione. A figura do relojoeiro é um forte símbolo de persistência, dada a paciência necessária para a execução de seu trabalho. Aliás, ele conserta o tempo, em uma espécie de recuperação do passado.

O que acabou de ser dito também pode ser uma forma de explicar, resumidamente, a trama de um belo filme de Martin Scorsese chamado “Hugo Cabret”.

O título da obra é também o nome do protagonista, um menino de 12 anos que vive no meio das engrenagens dos relógios da estação ferroviária Gare Montparnasse, em Paris. É ele quem mantém os relógios do local em funcionamento.

Antes de morrer, mesmo destino de sua mãe, seu pai era relojoeiro e funcionário de um museu. Ele adorava levar seu filho ao cinema antes de morrer no incêndio do museu onde trabalhava.

Sem os pais, Hugo passou a ser criado pelo tio, que o ensinou a cuidar dos relógios da estação. Esse tio acaba desaparecendo, o que força o menino a roubar comida para sobreviver, mas sem deixar de cuidar das máquinas.

Para não contar muito da trama, vamos dizer apenas que entra na história um personagem real, o cineasta Georges Méliès, a quem o menino acaba ajudando a, de certa forma, recuperar o passado. Justo o menino que cuida dos relógios!

Algumas citações do filme ajudam a entender melhor o poder da simbologia dos relógios e de sua importância para essa história. Referindo-se a Méliès, em certo ponto, Hugo diz: “Tudo tem um propósito, até as máquinas. Os relógios dizem as horas. Os trens levam a lugares. Servem a seus propósitos. Por isso as máquinas quebradas me deixam triste. Não servem a seus propósitos. Talvez seja assim com as pessoas. Perder o nosso propósito é como estar quebrado”.

Já a esposa do cineasta diz o seguinte: “Georges, você tentou esquecer o passado por muito tempo. Isso só lhe trouxe tristeza. Talvez seja a hora de tentar relembrar”. Isso também nos mostra a força da persistência. Assim como o pai de Hugo recuperava relógios com sua paciência, a persistência pode recuperar um passado que tínhamos como perdido.

Alan Moore e o relógio do fim do mundo

Watchmen é uma série em quadrinhos criada pelo escritor britânico Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons, publicada em 1987. Existe também um filme baseado na obra, de 2009, e uma série televisiva, de 2019, ambos renegados pelo autor (que tem um histórico de brigas com grandes corporações e uma postura purista em relação a sua obra).

Em sua história aparece o Relógio do Fim do Mundo, um símbolo presente a cada edição publicada, marcando cada vez menos segundos para a meia-noite, o limite para a chegada do dia do Juízo Final.

A expectativa na trama era de que a Guerra Fria, com sua disputa nuclear, estava próxima de levar o mundo à destruição. O símbolo deste perigo armamentista que nos levaria ao armagedon era o relógio.

Mas mesmo os fãs mais ardorosos da obra de Alan Moore podem ficar surpresos com a informação de que o Relógio do Fim do Mundo existe de verdade! O “Doomsday Clock”, no entanto, não marca mais a iminência do apocalipse que poderia ser causado por EUA e União Soviética nos anos 50, pois a Guerra Fria acabou nos anos 80.

Mas ele continua alertando para outros perigos iminentes, representando o quão perto a raça humana está do seu fim. Para isso, seus ponteiros são adiantados a cada sinal de alerta de que estamos seguindo pelo caminho errado…

O relógio foi criado no ano de 1947 por cientistas que trabalharam no desenvolvimento da bomba atômica, encomendado pelo governo dos EUA. Desde seu início, os ponteiros podem ser atrasados ou adiantados, sempre com base na decisão de renomados cientistas, incluindo vencedores do Prêmio Nobel. Tudo sob a supervisão da Universidade de Chicago.

Em 2020 o relógio foi adiantado em 30 segundos, deixando a humanidade a apenas 2 minutos e 30 segundos simbólicos de sua extinção. Isso acabou se tornando um novo recorde, o mais próximo da meia-noite desde o auge da Guerra Fria.

A justificativa para o avanço dos ponteiros foram as bravatas do presidente Donald Trump contra os estudos do impacto do Aquecimento Global no planeta. Ele chegou, inclusive, a proibir que órgãos do governo americano se manifestassem sobre esse importante assunto, inclusive a NASA.

Além desse fato, os cientistas também alegaram que o risco de uma nova Guerra Nuclear voltou a assombrar a humanidade, além de outros riscos relacionados ao meio ambiente. O documento chega a citar a Amazônia como uma das causas desse risco, com os incêndios ocorridos no mesmo ano.

Será que ainda dá tempo de revertermos esse cenário?

Em tempo: você se lembra de mais algum filme, desenho, livro ou outra obra onde o relógio tenha um papel importante? Conte pra gente nos comentários!

Compartilhe o artigo

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin

CATEGORIA DO BLOG

MAIS E LIDOS

artigos RELACIONADOS

Contato

Todos os direitos reservados ©

Acesso restrito